Um pouco de culinária japonesa

Uma das melhores experiências que se pode ter no Japão é a de conhecer uma culinária tão diversificada e fantasticamente saborosa, podendo encontrar surpresas em lugares inesperados. Não, não falo da culinária japonesa que é vendida nas terras de cá como a repleta de sushis, sashimis e temakis que, por ironia do destino, transpassa aos “ocidentais” a impressão de que os japoneses só vivem dos rolinhos de arroz e algas todos os dias. Apesar de falar hoje sobre pratos do cotidiano nipônico, tenho certeza de que muitos dos nossos leitores jamais ouviram falar de tais preciosidades.

Para construir este breve artigo, hoje peço a ajuda de dois grandes artistas e sua obra que me conquistaram pelo estômago no último fim de semana: Jiro Taniguchi e Masayuki Kusumi com o mangá Gourmet. Lançado no Japão originalmente em 1997 pela Fusosha, Kodoku no Gurume (孤独のグルメ) conta de maneira sublime as aventuras gastronômicas do nosso Gourmet Solitário pelos restaurantes, docerias, bares e até mesmo os konbini japoneses em busca do prato perfeito. Mentira, ele não está atrás do prato perfeito. Ele só quer mesmo se deliciar com pratos típicos da culinária japonesa.

Por prato típico japonês, entenda como uma refeição que você faria normalmente durante um dia de trabalho na Terra do Sol Nascente. Nada de frescura, nada dessa idiotice de achar que o Japão foi tomado por temakis. Muitos amigos meus ainda se surpreendem ao saber que existem muito mais coisas que sushi e sashimi. Assim como em alguns lugares no exterior a imagem que fariam da culinária brasileira tristemente se reduz à feijoada e ao churrasco…

Enquanto Gourmet tem como personagem principal um exímio apreciador da culinária local – e com isso entender todos os seus pormenores, detalhes e maneiras sobre como e o que comer, a experiência de nosso solitário protagonista na hora de comer me lembrou e muito a minha própria quando no Japão. Apesar de estudar cultura japonesa por vários anos e freqüentar regularmente os “restaurantes japoneses” brasileiros, muitos dos pratos que conheci no Japão foram fantásticas descobertas – algumas prazerosas (amo-te, tsukune), outras nem tanto (pobre nankotsu). Vai ver, não foi à toa o meu fascínio por este mangá, lido numa madrugada de sábado com muita avidez, muitas saudades e muita água na boca.

Dividido em 18 capítulos belamente ilustrados que apresentam um prato principal e inúmeros acompanhamentos, Gourmet é centrado nos momentos em que nosso protagonista não está trabalhando. Pois é. Diferente dos quadrinhos japoneses que brincam com heróis do passado samuraico japonês, criaturas fantásticas, adolescentes com baralhos mágicos, pessoas na labuta diária, na escola ou então robozões ou humanos com implantes cibernéticos no corpo todo, Gourmet se prende nos momentos em que esse mesmo protagonista está de folga, antes ou depois de um compromisso de negócios. Vendedor de produtos importados, nosso solitário gourmet viaja pelo Japão vendendo coisas e comendo, muito obrigado.

Nestes pequenos momentos de folga, acompanhamos com nosso gourmet a procura – às vezes aleatória, às vezes previamente planejada de lugares, bares, docerias e restaurantes em avenidas, ruas e vielas de cidades japonesas, seja na capital Tóquio, seja no oeste em Osaka, todas apinhadas de pequenas portinholas cujas surpresas gastronômicas ao atravessá-las são muitas. E aí vale a pena EU entrar nessa conversa, narrando um momento muito similar ao perambular pelas ruas de Tóquio em busca do meu jantar, afinal, também sou filho de Deus, Kami-sama, como preferir.

Após um dia de pesquisa acadêmica em um bairro da capital, me encontrei com uma amiga japonesa em Shinjuku para procurar por uma dessas portinholas mágicas. Para aqueles que não tiveram a felicidade de poder conhecer as cidades nipônicas, vale dizer que o Japão é um mundo repleto de restaurantes e bares de todo tipo, cujas iguarias gastronômicas renderiam mais 1.5831583 sites como esse. Após andar para lá e para cá por entre as vielas e ruas de Shinjuku, achamos um pequeno estabelecimento sem grandes placas ou anúncio na fachada, não devendo ter mais de 5 metros quadrados em seu interior. Além dos dois cozinheiros que ficavam atrás de um balcão em L, uns 7 fregueses compartilhavam o ambiente com uma atmosfera que nunca vi similar no Brasil. Isso, um do lado do outro, todo mundo conversando alegremente sobre o cotidiano… Após algumas porções, lembro de termos devorado lá um excelente okonomiyaki (quase que uma panqueca japonesa super recheada e absurdamente saborosa) e um yakisoba (um macarrão chinês frito mais saboroso ainda) por um preço irrisório.

Como bem disse o próprio Jiro Taniguchi no artigo Ishiwarizakura de Kamaishi, o Japão é um país onde se pode apreciar um magnífico prato nos lugares mais inesperados e por um preço bastante acessível. O nome do artigo é por si só um achado. Calma, explico. Ishiwarizakura se refere justamente à cerejeira que nasce entre as fendas de um rochedo, representando uma jóia que aparentemente não nasceria em lugar tão inesperado. A beleza da referência não apenas elucida a sutileza e delicadeza de toda uma estética japonesa, como brinca com a aventura de achar pratos tão saborosos nos lugares onde menos se espera. Ah, isso é bem verdade.

Um item muito legal de Gourmet é o glossário ao final do mangá, ou começo dele. Sim, final, já que mangá se lê de trás pra frente, da direita para a esquerda. No glossário estão descritos todos os pratos e ingredientes apresentados nas aventuras do nosso solitário gourmet, trazendo para os leitores que acham que Japão se resume a sushi, sashimi e temaki todo um universo de comidas fantásticas a serem descobertas e apreciadas. Fiquei absurdamente nostálgico com a leitura ao acompanhar o nosso gourmet em pratos típicos, assim como ao descobrir beleza em pratos até de lojas de conveniência, acreditem se quiser. Foi o único mangá que já li na vida enquanto salivava simultaneamente.

Ao mesmo tempo, nas ações do nosso protagonista, no seu relacionamento com as demais pessoas e com a paisagem, além de suas memórias e lembranças ao saborear esse ou aquele prato, temos acesso a muito da cultura japonesa. Quem for um pouco mais atento vai ficar de olho na troca de olhares, nas piscadelas – para lembrar um famoso antropólogo… ou até mesmo nas onomatopéias presentes em cada quadro. Como que uma pequena crônica narrando os eventos diários, temos, além disso, uma excelente indicação do que e onde comer, sabendo até mesmo o preço dos pratos. Tudo isso em quadrinhos.

Apesar de parecer aos olhos “ocidentais” como algo extremamente despretensioso, Gourmet de Taniguchi e Kusumi apresenta uma dimensão de humanidade tão característica de outras obras japonesas clássicas. Talvez esteja aí também outra cerejeira entre as fendas de um rochedo, onde encontramos poesia nas páginas de uma simples história em quadrinhos. Como está lá impresso na orelha da edição brasileira de Gourmet, podemos encarar seus capítulos como pequenos poemas, que falam de comida, das ruas, de gente comum. Nas coisas diminutas e menos inesperadas que encontramos… vida. E isso é genial, meus caros. Genial.

Gourmet chegou ao Brasil em 2009 pela Editora Conrad. Sim, admito de maneira vergonhosa o meu atraso na leitura de um mangá tão… aprazível. Com 200 páginas, uma capa fantástica e um trabalho editorial competente, recomendo Gourmet para todos, não apenas aos apreciadores da cultura e da culinária japonesa, assim como àquelas que buscam – de maneira diferente – uma leitura sobre os próprios dilemas cotidianos. Leve. Perfeito. Gochisousamadeshita.

Victor Hugo, o kodoku no gurume

Receita:

A elaboração deste artigo não foi menos divertida que a leitura de Gourmet. Mesmo com o mangá em mãos e muito boa vontade, gastei um tempo para arranjar um começo decente regado à batata frita de saquinho. Terrível, eu sei. Foi apenas quando coloquei a trilha sonora de Julie & Julia (de Alexander Desplat; aliás, leia agora mesmo o artigo sobre Julie & Julia no Ao Sugo, este falando sobre culinária francesa) que o negócio todo saiu, após dias sem um novo artigo meu para o Ao Sugo. E como Gourmet teve o seu glossário apetitoso, aqui vai o meu:

  • Okonomiyaki – espécie de panqueca ou pizza japonesa preparada com uma massa a base de farinha de trigo e água, a qual podem ser acrescentado diversos ingredientes (recheios) de acordo com o gosto do freguês. Como me diz a Juliana, são preparados numa chapa e servidos imediatamente, mas, digo eu que nos restaurantes mais divertidos atrás destas portinholas mágicas as chapas ficam na própria mesa e os fregueses que preparam o okonomiyaki a gosto. Que experiência, que experiência…
  • Yakisoba – prato de origem chinesa que literalmente significa “macarrão frito”. O prato em si é composto por legumes e verduras fritos, com algum tipo de carne além do macarrão, é claro. O truque é servir com um molho espesso a base de shoyu e óleo de gergelim torrado, porém, como diz meu amigo Aron Palo, saber como é feito não significa que você sabe fazer. Pois é, não sei…
  • Tsukune – um espetinho de carne de frango processada, se não me engano uma especialidade da região onde morava, Tokai. Vendido nos restaurantes de Yakitori, em alguns lugares era possível encontrar a perdição em espetinho chamada chiizu tsukune, a carne de frango recheada com queijo.
  • Nankotsu – uma porção de cartilagens de frango empanadas, bastante popular em alguns bares. Facilmente substituível por um Tsukune, Okonomiyaki ou Yakisoba, só saber pedir corretamente.

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