Hafu

O Japão é notoriamente conhecido por sua taxa de natalidade negativa, uma informação que já é contada em tom de anedota pelos pesquisadores e outros estudiosos das Ciências Sociais. Estes índices preocupantes refletem uma dificuldade latente do país em conciliar momentos de grande crescimento econômico com profundas alterações na estrutura familiar que datam desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Contudo, diante deste cenário que, para várias pessoas pode ser considerado como um sério problema de ordem social, algo está mudando. Como informa o documentário Hafu (2013), 1 a cada 49 novos bebês que nascem no Japão é mestiço.

A informação da luz a uma grande mudança no tecido social japonês que coloca em cheque séculos e mais séculos de história. Após 250 anos de isolamento – o período conhecido como Sakoku, em que o Japão fechou seus portos e relações exteriores com o mundo, com exceção da Holanda – o país vem desde o século XIX recebendo cada vez mais estrangeiros, fazendo não só com que a sociedade japonesa, as autoridades e seus intelectuais precisem refletir sobre a diversidade, a produção da diferença e o multiculturalismo. Novas questões e novos dilemas são evidentemente postos diante dos problemas identitários. Sendo a identidade uma das categorias mais sensíveis que organizam a experiência social contemporânea, nos resta voltarmos os olhos para esses novos desafios.

Tal questão já vem sendo trabalhada em torno dos estudos de parentesco, com Nádia Fujiko Luna Kubota-Treillard e Érica Rosa Hatugai se debruçando sobre os casamentos interraciais com brasileiros e descendentes de japoneses no Brasil e a miscigenação envolvendo nipônicos no país, respectivamente. Ambas são pesquisadoras do Núcleo de Estudos Japoneses do Laboratório de Estudos Migratórios da Universidade Federal de São Carlos (LEM-UFSCar).

Há pouco assisti ao documentário Hafu, de Megumi Nishikura e Lara Perez Takagi, narrando outras histórias acerca dos mestiços no Japão que ainda precisam confrontar o preconceito e adotar novas estratégias para navegar na sociedade nipônica.

O documentário em si apresenta algumas narrativas bastante interessantes, envolvendo nipodescendentes mestiços com outras origens e diferentes faixas etárias, enfrentando dilemas igualmente diversos.

Todas as narrativas são importantíssimas, porém, gostaria de dar destaque àquelas que envolvem um descendente de japoneses com ganeses, japoneses com mexicanos e japoneses com coreanos. As três combinações partem para o embate de antigos preconceitos históricos que o país sofreu e ainda luta para abandonar, permeados pelo desafio às noções de identidade nacional japonesa, sangue, raça e cor. Disponível para venda e locação no Vimeo On Demand, o documentário é interessante e merece ser visto por todos aqueles que querem conhecer um pouco mais do Japão dos dias de hoje.

Pude observar alguns dos dilemas apresentados no documentário em minha tese de doutoramento, quando trabalhei de perto com brasileiros nipodescendentes que atuam no suporte escolar e psicológico às crianças, aos filhos dos dekasegi.

日本は多様化しているJapan is changing from Hafu Film on Vimeo.

Comentem, compartilhem e espalhem a palavra: ainda precisamos falar sobre identidade!

Victor Hugo Kebbe
Hafu

Direção, produção e fotografia Megumi Nishikura e Lara Perez Takagi

Aconselhamento temático Marcia Yumi Lise

Produção executiva Jilann Spitzmiller

Edição Aika Miyake

Música Winton White

Victor Hugo Kebbe

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