11/03/2011

“Tinha acabado de sair do banho naquela tarde do dia 11 de março de 2011 quando comecei a me sentir enjoado. Imaginei estar com uma leve tontura, o que me fez sentar. Foi quando percebi que as portas corrediças do armário de meu apartamento estavam produzindo o ruído de uma vibração constante e baixinha. Às 14:46 da tarde o Japão estava sofrendo um dos piores terremotos de sua história.

“Imediatamente liguei o aparelho televisor num canal japonês, quando todas as redes anunciavam um sismo de pelo menos 7 graus na Escala Richter na região costeira de Tohoku, leste do Japão. A vibração foi sentida em Hamamatsu em baixa intensidade e por mais alguns minutos, quando o televisor anuncia um alerta de tsunami iminente nas regiões de Ibaraki a Aomori. Nos 5 minutos seguintes o mar invadiria revoltoso a costa leste do Japão com ondas de pelo menos 10 metros de altura.

Ao contrário de tudo o que já foi falado e discutido sobre o Grande Terremoto do Leste do Japão, a pior sensação não foi sentir o tremor em si, já que – de forma que não posso explicar – você rapidamente fica de prontidão e se prepara para adotar os procedimentos de segurança. O pior momento foi quando nós podíamos ver o tsunami adentrando e destruindo indômito as cidades japonesas, ao vivo.

A televisão mostrava apartamentos e casas sendo arrastadas conforme o passar das ondas. Tal como no ataque terrorista de 11/9/2001 nos Estados Unidos, era possível ouvir o tom de incredulidade dos repórteres japoneses noticiando a catástrofe. Tamanha foi a destruição que pudemos acompanhar ao vivo que eu mesmo não conseguia processar as imagens – o que de fato só consegui me dar conta dois dias depois.

Poucos minutos após o sismo liguei para o Brasil para informar a minha família sobre o ocorrido, deixando claro que não tinha acontecido nada em Hamamatsu e que estava tudo bem, alertando para o sensacionalismo televisivo que ocorreria no Brasil nas próximas horas. Em minha mente, era melhor que soubessem de imediato que estava tudo bem, em plena madrugada no Brasil, do que acordarem e assistirem em um “Ana Maria Braga” o Japão sendo devastado.

Mal me dei conta da sorte que tivemos em Shizuoka. Toda a rede de telefonia, internet e energia elétrica estava congestionada ou incapacidade nas províncias acima de Kanagawa, o que me fez perder o contato com amigos em Tokyo. Enquanto toda a tragédia ainda estava ocorrendo, podia ver e avisar meus pais pelo Skype que estava de fato tudo bem em Shizuoka.

A imprensa internacional foi mobilizada no mesmo instante. Eu pude perceber o quão atônitos meus pais estavam na webcam, como que em choque. Absurdamente pálidos e tensos, parecia ser igualmente difícil para eles poderem entender que toda aquela tragédia que ocorreu no norte não tinha afetado a minha região. Minha mãe pedia para que eu continuasse online o máximo de tempo possível, quando rapidamente comecei a receber telefonemas e outras mensagens pela internet de amigos e parentes no Brasil.

Passei as horas seguintes ligando para os meus contatos na região para saber se estava tudo bem. Liguei para a minha orientadora em Shizuoka e para os meus amigos em Nagoya e Osaka, já que ainda era impossível contatar a região de Tokyo. Mantive contato constante com a Japan Foundation por email, informando que a região de Hamamatsu passou incólume.

O Japão é um arquipélago que, por estar localizado em plena junção de placas tectônicas, é região de vários sismos, sendo corriqueiro percebermos terremotos menores em várias regiões durante todos os dias. Já alertado sobre a incidência de sismos desde o primeiro dia em que cheguei ao Japão, é recomendado seguir uma série de procedimentos de segurança, afinal, não é que você pode passar por um terremoto: você vai passar por algum tipo de evento desses.

Contudo, o Grande Terremoto do Leste do Japão era algo inesperado até para os próprios japoneses. Leituras posteriores comprovaram que o sismo tinha atingido o grau máximo da escala de magnitude de momento e as ondas que atingiram a região costeira excederam em muito os 10 metros de altura. Oficialmente foi reconhecida a morte de 13.333 pessoas, além do desaparecimento de aproximadamente 16.000 outras, dados anunciados pela imprensa japonesa durante aquele ano.

Cidades inteiras foram devastadas, rastro de destruição que ainda impressiona pelas fotografias que agora estão disponíveis online no mundo todo. As linhas de trem e Shinkansen na região literalmente “sumiram do mapa”, além do arrasamento de várias rodovias e prédios públicos. A infra-estrutura dos reatores das usinas nucleares de toda a região acionou automaticamente os desligamentos e interrupção das reações químicas, com exceção da Usina Nuclear Daichi de Fukushima, atingida seriamente pelas ondas.

Já no fim da tarde daquela sexta-feira começamos a ser avisados sobre os problemas da radiação, cujos dispositivos de segurança e de emergência haviam sido varridos para longe dos reatores. Como os sismos continuaram fortemente ocorrendo na região, o Japão entrava na pior crise nuclear da História, obrigando a evacuação emergencial de inúmeras famílias que moravam na Província de Fukushima e cercanias.

Passadas as primeiras horas, andando pelo centro de Hamamatsu soube que de fato a cidade passara ilesa à catástrofe. As pessoas continuavam freqüentando o ZaZa City naquele final de semana e o trânsito de carros, ônibus, trens e Shinkansen permaneceu normal. O único sinal de “anormalidade” podia ser visto nas gôndolas de supermercados, cujos mantimentos de emergência estavam sumindo em questão de minutos, a grande maioria destinada às vítimas ao norte de nós.

Chegar a meu apartamento era adentrar em uma realidade completamente diferente. Ligar o televisor para acompanhar as notícias e na internet para manter contato com todos no Brasil e Japão acabavam deixando a atmosfera fantasticamente sombria. Meus parentes e amigos não conseguiam acreditar na tragédia, até que fui obrigado a filmar as redondezas e mostrar a normalidade da cidade para “comprovar” que de fato estava tudo bem. Mesmo munido de minha webcam, minha câmera portátil e minha palavra ao vivo, online, era literalmente difícil competir com o sensacionalismo da imprensa brasileira.

Nos dias seguintes, enquanto Tokyo estava sendo esvaziada e a região mais ao norte sendo evacuada, os consulados e embaixada brasileira no Japão foram de supetão sendo sobrecarregados. Blogs e sites brasileiros espalhavam boatos sobre a antecipação do Grande Terremoto de Tokai – a minha região, além do perigo das usinas nucleares e termo-elétricas de toda região de Chubu, ao ponto de alguns sugerirem a chegada da erupção do Fuji.

(…) Com a dificuldade e tensão de meus parentes e amigos no Brasil, voltei do Japão passadas duas semanas depois do terremoto. Com a pesquisa de campo já finalizada naquela época, o retorno era a única forma de aplacar a “crise familiar”, algo que certamente foi sentido de maneira similar por inúmeros brasileiros em todo Japão e Brasil.

(…) O Grande Terremoto do Leste do Japão estava atuando como um poderoso catalisador de relacionalidades. Estava começando tudo de novo. Diante da “nova” distensão de familiares e amigos em dois países, os arranjos continuavam a mudar, denotando ou reforçando a efemeridade dos laços que unem essas pessoas.”

Extrai este pequeno trecho da minha tese de doutorado, realizada na Universidade Federal de São Carlos em conjunto com a Universidade de Shizuoka, disponível online no site da UFSCar. Naquela oportunidade, estive no Japão pela primeira vez como Fellow de Estudos Japoneses da Japan Foundation. Passados 5 anos do tsunami e do grande terremoto de Tohoku, gostaria de deixar aqui a minha lembrança do ocorrido, trecho que foi, emocionalmente, bastante difícil de redigir na época. Todos aqui sabem do meu grande carinho pelo Japão e toda a sua população, e confesso que fiquei absurdamente triste com aqueles eventos todos.

Deixo aqui os meus agradecimentos à Japan Foundation e aos meus amigos lá, dedicados a estimular o estudo do Japão e da Cultura Japonesa pelo mundo.

Aos demais interessados, eis a minha tese, que apesar de não ter sido focada no Terremoto de Tohoku em si, foi inevitavelmente atravessada por ele:

SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe. 一期一会 – Na vida, única vez. Fabricando famílias e relacionalidades entre decasséguis no Japão. p.303. Tese (Doutorado em Antropologia Social), UFSCar, São Carlos, 2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s