Xintoísmo no interior paulista

É bastante frequente a Japanologia receber mensagens e pedidos para explicar ou tecer alguns comentários sobre o que é Xintoísmo, algo que, por si só, demandaria incontáveis eras para uma explicação minimamente satisfatória. Alguns passos já foram dados nesse sentido, como vocês podem conferir no artigo O Caminho dos Deuses e em incontáveis posts do Tumblr da Japanologia.

Shinto (神道 ou Xintoísmo em Português) ou Kami-no-michi significa o Caminho dos Deuses. É uma tradução pobre, pois não existe aqui uma conotação com os deuses ocidentais. Eles não estão falando sobre uma força (ou forças) superior que criou tudo e todos. Eles não estão falando sobre a antropomorfização de aspectos ou qualidades humanas, virtudes ou vícios como em várias mitologias. Shinto, considerado por muitos como uma religião nativa do Japão, lida com as forças da natureza, sobre deuses que não estão necessariamente preocupados com a mundana vida humana.

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Uma das mais fascinantes diferenças do Xintoísmo e do Cristianismo é que neste as Igrejas são espaços sagrados que nos conectam com Ele, enquanto que nos santuários xintoístas nós estamos quase sempre na presença dos deuses. Sim, eles estão lá.

Um desses espaços é o Paulista Jinja (パウリスタ神社), próximo à cidade de Avaí e que comemorou no mês passado 44 anos de existência. Sendo o único santuário xintoísta do oeste paulista, o Paulista Jinja recebe anualmente cerca de 250 pessoas para a famosa Bênção dos Carros, no qual um sacerdote japonês realiza um ritual xintoísta de purificação e proteção dos carros de todos os presentes.

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O Paulista Jinja conta com a participação anual do sacerdote xintoísta Tamotsu Sato na realização da Bênção dos Carros. Com mais de 92 anos de idade e vindo do Japão com apenas dez, o sensei Sato pôde acompanhar todo o processo de fundação do Paulista Jinja. Como uma forma de manter os costumes pré-migratórios, os líderes das famílias Massuyama, Honda, Kotsubo, Tanaka e Yanagiwara fundaram o santuário em 1973, convidando o arquiteto japonês Massakichi Bepu para realizar o projeto e a construção, toda em madeira de aroeira.

O santuário mantém as características de um santuário xintoísta japonês, como a demarcação do espaço sagrado com um grande portal de madeira na entrada, além de um espaço para a purificação individual de cada um que entra no recinto (temizuya, 手水舎), o espaço para oração (haiden, 拝殿) e santuários auxiliares (setsumatsusha), além de ter sido executado com arquitetura tradicional japonesa e com materiais encontrados no Brasil.

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Uma das características marcantes do Paulista Jinja é o hibridismo religioso no local. Além de ser visitado pela maior divindade xintoísta, a Amaterasu-ōmikami (天照皇大神) ou Ōhirume-no-muchi-no-kami (大日孁貴神), o santuário conta com dois santuários auxiliares dedicados à Nossa Senhora e ao São Sebastião. Tal questão já foi abordada por vários pesquisadores, dando destaque para os trabalhos apresentados na edição 35 do Japanese Journal of Religious Studies, do Nanzan Institute for Religion and Culture. Não perca os próximos posts sobre o Paulista Jinja aqui na Japanologia.

Victor Hugo Kebbe

Deixo aqui um agradecimento especial à família Yanagiwara pelas informações. Agradeço também o convite de Massayuki Yanagiwara para participar das atividades do Paulista Jinja nos anos de 2015, 2016 e 2017.

Clique aqui para acessar todos os posts sobre xintoísmo do Tumblr da Japanologia.

Imagens: acervo pessoal

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