Religião Ryukyuana: a centralidade das mulheres

Texto de Leila Mitie Higa[1]

Ryukyuan religion: the centrality of women (English)

O presente artigo tem como objetivo analisar brevemente alguns aspectos do papel da mulher na religião ryukyuana, abordando, principalmente, a condução de rituais em diferentes esferas e a “mulher” como símbolo. Para tanto, primeiro, será necessário apresentar sucintamente o mito de criação e a história de Ryukyu, as influências externas e algumas das características da religião local. Em seguida, será explorado o papel estabelecido para mulheres ao longo da história, em rituais realizados no âmbito do Estado, da comunidade e doméstico, e, no último caso, principalmente, no que tange ao culto aos antepassados, no qual também será abordado o simbolismo do feminino na religião. Dessa forma, será possível analisar os papéis de gênero em âmbito espiritual e símbolos que têm sido associados com as mulheres das Ilhas Ryukyu.

O mito da criação de Ryukyu já aborda a centralidade das mulheres em questões espirituais. Segundo ele, o deus Shinerikyu e a deusa Amamikyu conceberam três filhos através de um vento que toca Amamikyu. O primeiro, um menino, tornou-se o primeiro rei, a segunda, uma menina, tornou-se a primeira sacerdotisa e o terceiro, outro menino, representa a origem da humanidade[2]. Com isso em mente, também deve ser notado que a cultura e as tradições ryukyuanas são marcadas por uma grande diversidade dentro de seu território, porém, no geral, compõem-se por elementos da tradição indígena e uma variedade de influências – em diferentes níveis – de seus vizinhos, principalmente, a China e o Japão.

O relacionamento formal com a China remonta à época em que Ryukyu ainda era dividido em três reinos diferentes – Nanzan, Chuzan e Hokuzan -, mas foi intensificado após a unificação, em 1429, sob o reinado de Sho Hashi[3]. O período foi marcado pela expansão do comércio marítimo e aumento do fluxo de princípios do budismo, taoísmo e confucionismo. Quanto ao Japão, sua influência sobre Ryukyu foi acentuada após a invasão do daimiyo de Satsuma – atual província de Kagoshima – em 1609, época em que os europeus se aproximavam – e colonizavam – parte da Ásia, portanto, uma preocupação para o Japão. Satsuma, porém, manteve o governo do reino, para que fosse possível aproveitar a relação comercial com a China, o que causou um “golpe desastroso” para a economia ryukyuana[4]. Em 1879, no Período Meiji (1868-1912), o Reino de Ryukyu foi formalmente anexado ao Japão, tornando-se, então, a província de Okinawa. Chambers-Letson (2014) afirma que, após a anexação, “o início do século XX assistiu a uma série de programas de japonização que efetuaram o apagamento da história, língua e cultura de Ryukyu”[5], inclusive, com a estigmatização e perseguição às xamãs. Apesar desse processo e da violência com que foi  levada, a cultura e a religião ryukyuana ainda têm suas particularidades, de forma que “Okinawa não sugere uma mera entidade provinciana, mas sim uma cultura distinta evidenciando vários graus de afiliação com culturas vizinhas”[6].

William Lebra, em “Okinawan religion: belief, ritual, and social structure” (1966), aponta que a religião de Okinawa pode ser vista como animista[7], e, também, há uma crença importante quanto à reciprocidade entre os humanos e o sobrenatural, e, a fim de obter tal reciprocidade de forma positiva, os humanos precisam realizar vários rituais. Lebra (1966) enfatiza o foco da coletividade na religião de Okinawa, que é vista em diferentes níveis da sociedade: (i) o Estado – de 1429 a 1879; (ii) a comunidade; (iii) o grupo de parentesco e; (iv) núcleo familiar, sendo que cada ambiente possui rituais que são realizados com finalidades distintas, abarcando as respectivas questões para cada nível de organização da sociedade, sendo tais rituais conduzidos majoritariamente por mulheres.

Nesse sentido, é oportuno explorar os papéis das mulheres enquanto sacerdotisas[8] e xamãs[9]. As sacerdotisas eram aquelas cuja principal função era se comunicar com seu próprio kami, buscando os interesses do grupo que ela representava; as xamãs, por outro lado, “com base na habilidade de terem poderes sobrenaturais, ver e ouvir estão amplamente envolvidos na determinação das causas do infortúnio e no direcionamento de ação reparadora”[10], lidando com assuntos de natureza familiar ou individual[11].

Segundo Lebra (1966), no âmbito do Estado, havia a sacerdotisa superior (chifijing ganashii mee), que, normalmente, era uma irmã mais velha ou filha mais velha do rei. A sacerdotisa superior tinha, virtualmente, o mesmo ranking do chefe de Estado, uma vez que o reino era organizado para fins religiosos e políticos – portanto, havia um sistema onde duas facetas complementares eram observadas, uma hierarquia religiosa feminina e uma hierarquia política masculina. A chifijing, ao lado do alto escalão de funcionários do reino, também encabeçava o Conselho Nacional dos Dez, que determinava as diretrizes em questões religiosas. Outras sacerdotisas incorporadas à hierarquia religiosa do reino, e abaixo da chifijing, eram as chikasa kumui, ufu su nu mee e as nuru. O fim do reino e a anexação ao Japão resultaram na desintegração gradual da religião em tal esfera e perda de poder institucional dessas sacerdotisas. No entanto, lembrando-se da divisão em diferentes níveis da sociedade feita por Lebra (1966), as outras camadas também tinham suas respectivas sacerdotisas, o que significa que a comunidade e o grupo de parentesco deveriam ter uma responsável por conduzir os rituais.

Quanto às xamãs, estas também têm um papel importante, principalmente no culto aos antepassados, pois se acredita que são capazes de convocar e se comunicar com os espíritos, além de realizar rituais para evitar uma má-influência da alma do falecido para a família[12]. Com relação ao culto aos antepassados, segundo Lebra,

Aparentemente, o budismo forneceu um sistema mais satisfatório para lidar com os espíritos problemáticos dos mortos do que existia anteriormente; a religião indígena, como vimos, está amplamente preocupada em propiciar as forças produtivas da natureza e evitar punições ou supressão de seu apoio. O medo de fantasmas e dos infortúnios que eles são capazes de infligir parece ser um traço profundamente arraigado, e certamente uma religião que oferecia tabuletas e ritos ancestrais e ensinava que os espíritos dos mortos, se devidamente cultuados, se tornariam agentes do bem, proporcionou alguma medida de alívio desse medo. O resultado foi que esses aspectos do budismo foram tão entrelaçados na crença de Okinawa que sua origem estrangeira mal é reconhecida (1966, p. 120, tradução da autora).

Além disso, mesmo que todos os membros da família devam orar pela alma do falecido em grandes eventos, Baksheev (2008), recuperando a informação do Governo de Okinawa (1992), afirma que cabe à mulher mais velha da família a responsabilidade sobre todas as atividades religiosas ligadas ao altar dos antepassados (o butsudan), observando o calendário lunar a fim de anunciar os próximos rituais religiosos, encarregar-se da comida cerimonial e dispô-la no altar, bem como orar pelo bem-estar da família em ocasiões menores.

O autor, em “Becoming Kami? Discourse on Postmortem Ritual Deification in the Ryukyus” (2008), apresenta os vários rituais após a morte a serem realizados pela família do falecido, incluindo orações, oferendas de comida e bebida no altar da casa – que é transmitido através de gerações, de forma patrilinear – e celebrações anuais, como o bon, até o trigésimo terceiro aniversário da morte, quando a alma do falecido sofre a deificação[13]. Um dos rituais mais importantes para atingir a deificação é  o senkotsu, o ritual de lavagem dos ossos, que teria sido importado do sul da China, realizado para remover a poluição da morte – no caso, a carne em decomposição. Aqui, há a correlação entre sangue/carne, ligados ao feminino, e ossos/sêmen, ligados ao masculino[14]. Tem-se, então, que os ossos seriam o símbolo da patrilinearidade e, de acordo com locais “só ossos são considerados importantes. A carne apodrece, mas os ossos são parte de seus ancestrais, então você não pode jogá-los fora” (in BAKSHEEV, 2008, p. 315).

Entretanto, Samara Konno (2015) estabelece um interessante vínculo e interpretação quando se trata do uso da palavra “poluição”, no sentido de “o que se mistura”, “o que entra em contato”. Existe a associação, também, com o profano (como a carne e o sangue, relacionados com o feminino) e o papel da mulher na comunicação com os ancestrais e na atuação na transição entre o profano e o sagrado, ou seja, atuar em prol de auxiliar no processo de deificação dos ancestrais. Também é importante salientar a observação de Baksheev (2008, p. 315-316), no sentido de que “a ‘ideologia androcêntrica do culto ancestral’ (J.L. Watson) da China foi enxertada na cultura ryukyuana que é caracterizada pelo equilíbrio de gênero e a superioridade ritual das mulheres que eram e ainda são responsáveis ​​pela maioria dos rituais”[15].

Assim, é possível reconhecer que, apesar da crença androcêntrica que embasa o culto aos ancestrais, o protagonismo da mulher em questões religiosas ainda está presente. Embora seja possível reconhecer uma perda significativa de poder institucional das sacerdotisas após o fim do Reino de Ryukyu, até hoje as mulheres são aquelas que têm o importante papel de estabelecer uma conexão entre o mundo material e o espiritual. Mesmo depois da entrada das ideias confucionistas e budistas de superioridade masculina, a centralidade do papel das mulheres ainda está presente quando se trata de questões religiosas nas Ryukyus. Note-se que isso não implica na inexistência de opressão de gênero contra essas mulheres, visto que ainda vivem em uma sociedade patriarcal, na qual os papéis de gênero são estabelecidos considerando outros aspectos além da religião local. Ainda assim, não se pode ignorar o fato de que as mulheres ocupam posições centrais nessa esfera como protagonistas da religiosidade ryukyuana.

Referências

ANIMISMO. In: OXFORD UNIVERSITY PRESS. Disponível em: <https://www.lexico.com/definition/animism&gt;. Acesso em 2021-05-20.

BAKSHEEV, Evgeny S. Becoming Kami? Discourse on Postmortem Ritual Deification in the Ryukyus. Moscou: Japan Review, 20:275-339, 2008.

CHAMBERS-LETSON,   Joshua.   ‘A   Weak   Messianic   Power’:   Yamashiro Chikako’s ‘Your Voice Came Out Through My Throat’. Trans-Asia Photography Review, Ann Arbor,  v.  5,  n.  1,  2014.  Disponível  em:  <http://hdl.handle.net/2027/spo.7977573.0005.105&gt;. Acesso em: 2018-01-23.

KERR, George. Okinawa: The History of an Island People. Tóquio: Tuttle, 2000, 592 pp.

KONNO, Samara. Retornando à casa: o culto aos antepassados okinawanos. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos Culturais) – Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. doi:10.11606/D.100.2016.tde-29082016-121526. Acesso em: 2021-05-21.

LEBRA, William P. Okinawan religion: belief, ritual, and social structure. Honolulu: University of Hawaii Press, 1966. xiv, 241 pp.

SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe da. Leituras Avançadas – Okinawa II.   8/ago., 15/ago., 22/ago., 29/ago. e 5/set. de 2020. Notas de Aula.

SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe da. Leituras Avançadas – Okinawa I. 19/jan., 26/jan., 02/fev. e 09/fev. de 2021. Notas de Aula)


Notas

[1] Advogada, bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

[2]  SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe da. Leituras Avançadas II – Okinawa.   8/ago., 15/ago., 22/ago., 29/ago. e 5/set. de 2020. Notas de Aula.

[3] KERR, George. Okinawa: The History of an Island People. Tóquio: Tuttle, 2000, 592 pp. passim.

[4] KERR, George, 2000, p. 159.

[5] Tradução nossa.

[6] LEBRA, William P. Okinawan religion: belief, ritual, and social structure. Honolulu: University of Hawaii Press, 1966. xiv, 241 pp. p. 13. Tradução nossa.

[7] De acordo com o Oxford Dictionary, animismo é “1. A atribuição de uma alma viva a plantas, objetos inanimados e fenômenos naturais. 2. A crença em um poder sobrenatural que organiza e anima o universo material ”. Disponível em: <https://www.lexico.com/definition/animism&gt;. Acesso em: 2021-05-20.

[8] Como será observado, Lebra (1966) utiliza várias e diferentes nomenclaturas para “sacerdotisa”, de acordo com suas categorias. A literatura mais recente tende a nomear as sacerdotisas como “kaminchu” e “noro” ou “nuru”, de acordo com suas funções (SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe da. Leituras Avançadas – Okinawa I. 19/jan., 26/jan., 02/fev. e 09/fev. de 2021. Notas de Aula).

[9] Também conhecido na literatura como “yuta”.

[10] LEBRA, op. cit.,  p. 74. Tradução e grifo nosso.

[11] SILVA, Victor Hugo Martins Kebbe da, 2021, Notas de Aula.

[12] BAKSHEEV, Evgeny S. Becoming Kami? Discourse on Postmortem Ritual Deification in the Ryukyus. Moscou: Japan Review, 20:275-339, 2008. p. 283.

[13] BAKSHEEV, 2008, p. 293.

[14] Ibid., p. 315.

[15] Tradução nossa.

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