Sosen Suuhai na comunidade okinawana do Brasil

por Samara Konno (English Version here)

Uma das primeiras e mais antigas formas de relação com o sagrado se deu através do culto aos ancestrais. Religiões e praticas culturais antigas se mantiveram até hoje em um continuo refazer simbólico para reverência de seus ancestrais. Por um lado essas ocasiões costumam representar a própria estrutura social em que estão inseridos, por outro, têm capacidade para atingir a sensibilidade individual, os sentimentos de pertença e identidade dos seus cultuadores.

Pensemos então em um grupo imigrante de japoneses no Brasil, os okinawanos, que tem como uma de suas características identitárias o culto aos seus antepassados. Trata-se de um culto baseado no budismo, mas com características próprias a partir do xamanismo okinawano. Feito de maneira improvisada pelos primeiros imigrantes no Brasil, este culto passou a ser mais sistematicamente realizado somente após a Segunda Guerra Mundial quando a batalha de Okinawa (única batalha corpo a corpo em território japonês) deixou milhares de mortos. Neste contexto, familiares mortos em combate precisariam ser reverenciados no culto aos antepassados como forma de facilitar sua evolução no mundo espiritual.

O culto em si consiste basicamente em três etapas. A primeira começa no dia da morte e se estende ao 49°dia. Nesse período são feitas missas a cada sete dias com a presença de toda a família e amigos. Pratos específicos como manju, moti, cenoura, nabo, bacon, gobo, raíz forte, entre outros são oferecidos no altar provisório onde se encontra a plaqueta memorial (ihai) com o nome do falecido. No 49°dia há um ritual de passagem do ihai para o altar permanente (butsudan). Começa então a segunda fase do culto que perdurará por mais 33 anos. Aniversários de 3°, 5°, 7°, 13°, 25°e 33° de morte são reverenciados por parentes e amigos. Além disso, são oferecidos alimentos e bebidas (do gosto dos antepassados) nos dias 1° e 15° de cada mês. Também é feita a limpeza do túmulo no tanabata (07 de julho) e missa de obon (dia dos mortos que ocorre nos dias 13, 14 e 15 de julho). No 33° aniversário considera-se que o antepassado alcança o nível máximo de elevação espiritual, sendo considerado por muitos como uma deidade ancestral.

Todos esses rituais são formas de comunicação entre familiares vivos e mortos, em que o culto opera como ajuda na evolução dos antepassados. Na contrapartida, os ancestrais também podem ajudar seus descendentes vivos. Além disso, o culto fortalece uma identidade familiar e um sentimento de pertencimento ao grupo étnico okinawano. Isso porque o culto é feito com especificidades em relação ao culto dos outros japoneses. Como dito anteriormente, o Sosen Suuhai okinawano possui ainda hoje uma característica muito xamânica. Ouvem-se muitas histórias de que negligências com o cuidado com os ossos ou cinzas, como por exemplo deixa-los úmidos, gera desconforto no ancestral que pode vir a causar loucura, doença ou problemas financeiros na família como forma de avisar que “algo deve ser resolvido” no culto. A mediadora dessa comunicação seria a yutá, médium capaz de entrar com contato com os mortos e ouvir deles qual problema deve ser solucionado.  Essa presença feminina é uma marca okinawana na forma de se realizar o culto aos ancestrais, que também não ocorre no culto realizado pelos japoneses das ilhas principais.

Enquanto minoria étnica japonesa no Brasil, o grupo aprecia e enaltece suas características culturais, diferenciando-se dos outros japoneses. Isso significa que o butsudan é também um lugar da memória, um lugar de comunicação e construção da identidade okinawana no Brasil. Neste caso é importante salientar que a presença feminina (normalmente associada a características de horizontalidade social) também se relaciona e parece fortalecer uma identidade okinawana baseada nos conceitos de icharibachoode (somos todos irmãos) e otagai (reciprocidade), valores muito caros à comunidade e que são responsáveis pela percepção de uma trajetória bem sucedida deste grupo no Brasil.

Samara Konno é Mestre em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, Universidade de São Paulo. Sua dissertação de mestrado, intitulada “Retornando à casa: o culto aos antepassados okinawanos”, é dedicada ao estudo desta prática na cidade de São Paulo.

Leia a versão em inglês aqui.


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2 respostas a “Sosen Suuhai na comunidade okinawana do Brasil”

  1. Avatar de Luiz Fernando Toshikatsu Ono
    Luiz Fernando Toshikatsu Ono

    Muito gratificante saber da cultura dos antepassados, e reverencaiar- los é muito importante, gostei de seus esclarecimentos.
    Realmente são detalhes que eu não os conhecia, muito obrigado.

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  2. Avatar de Luiz Fernando Toshikatsu Ono
    Luiz Fernando Toshikatsu Ono

    Muito gratificante saber da cultura dos antepassados, e reverencaiar- los é muito importante, gostei de seus esclarecimentos.
    Realmente são detalhes que eu não os conhecia, muito obrigado.

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